quarta-feira, 4 de março de 2009

Cotidiano

Ergues teu mínimo navio
armado na ponta do dedo.

Olhem!

Mas o único olho é
o de McCartney, sorumbático
e pulsando vida
chorando rios de vida
despejando vida pegajosa
na rósea espiral do disco.

A maleta azul te encurrala
e te escraviza: vais trabalhar,
escavar minérios, carregar
minérios, por eles serás soterrado
sufocado por tanto peso burocrático
que nada faz, além de minerar.

Tua existência é incerta,
é trifásica e irresponsável.
Em tua casa, os não-livros
de Rimbaud
de Baudelaire
organizam o mofo da vazia prateleira.

Ainda assim, com tantos poréns colecionados,
tens à noite a coragem de abrir A rosa do povo
e com uma vírgula de esperança aspira
ser sorvido de frases mastigáveis de tão duras.

quem sabe te transmutas em rosa!
Já que ao pó não retornarás.
E ao povo nunca pertenceste.

5 comentário(s):

J. Besouro disse...

Belo poema!
Assim como os outros que vc escreveu, parabens...muito bons mesmo...Vo te seguir também.

1/02 foi o que eu mais gostei de escrever, andei pensando em me afastar do blog, até doa-lo a uma amiga, mas aee lembrei desse texto e do quanto ele significava e desisti >.<
Foi escrito como presente de aniversario para uma pessoa que em segundos se tornou especial, mas infelizmente eu não me tornei o mesmo para ela.

Enfim...Obrigado por acompanhar o meu blog, passarei sempre por aqui para ler mais um dos seus belos poemas e etc...

www.casadobesouro.blogspot.com

Tuli disse...

Outro poema bem sucedido! Ta realmente BOM! Quem sabe, um dia, eu também consiga escrever algo assim! Enquanto não, vou lendo os daqui, que são incríveis! ta de parabéns "Jules" ;)

Gi Lahude disse...

Adorei esse poema. Realmente, tu tens muito talento na escrita. Só não consigo encontrar algum poeta pelo qual tu possas seguir o estilo... acho que tu tens estilo próprio.
Parabéns. :)

disse...

meu deus, tá bombando isso daqui! quanto à qualidade, concordo com os outros. :)

deco disse...

que merda heim juli