segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Retrato da guerra

O Reino do Norte entrou em guerra contra o Reino do Sul.

Coisa mínima, coisinha de nada. Levou apenas uma palavra imprecisa do Rei do Norte para que fosse mal-entendido por todos na Grande Festa da Corte Real dos Reinos. Audácia! Audácia! É o fim!, Berravam as damas em seus sedosos vestidos. Alguns nobres mais exacerbados já estavam passando da agressão verbal à física. Confusão, caos: o alvoroço era geral no monumental salão onde momentos antes todos comiam - muito bem civilizados - o variado banquete servido.

Reis e Rainhas fugiam nas carruagens para seus respectivos reinos, bem como alguns outros membros da nobreza. Outros, mais corajosos ou apenas menos preocupados consigo, ficaram e lutaram. Cadeiras voaram, talheres de prata e ouro serviram como armas improvisadas e a peleia continuou até... sabe-se lá quando. É conhecido apenas o fato de que o dia seguinte amanheceu já com a guerra pintada no céu.

Então os exércitos se prepararam: cimitarras afiadíssimas, broquéis forjados a metal e suor, lanças e javelins, alabardas, armaduras, espadas, piques, elmos, enfim: tudo o que se encontrava disponível ao uso militar se foi estocado. Cavalos e selas para a cavalaria, arcos, bestas e balistas para a artilharia. Tudo pronto para engrenar:

Que comece a guerra!! E que vençamos!! Ouvia-se no Reino do Norte. Ouvia-se no Reino do Sul.

Após algumas horas de marcha, os dois exércitos se encontraram próximos da divisa dos Reinos. Silêncio. Tensão. Ansiedade. Havia um equilíbrio na pastagem verde onde pisavam suas botas de ferro; ambos os lados tinham suas chances de vitória no embate que se aproximava. Eles tem uma cavalaria superior, mas nossa artilharia é incomparável!, pensavam os do Sul. Temos menos homens, mas os nossos são veteranos. Verdadeiros herois de guerra!, confortavam-se nesse pensamento os do Norte.

De súbito, do silêncio, o ataque; o exército do Norte saiu à carga. Correndo o mais rápido possível, os homens brandiam suas armas e urravam seus gritos de guerra. O exército do Sul, apesar de pego desprevenido, logo seguiu caminho e fez o mesmo que seus inimigos. Todos correndo, uns em direção dos outros. Todos menos um; havia um cavaleiro do reino do Sul que mantinha-se no lugar.

O cavaleiro tentava, mas não conseguia fazer seu cavalo andar. Batia suas esporas no cavalo, berrava, demandava o seu movimento no campo de batalha; nada. Ande, seu inútil! À guerra!, e nada do cavalo se mover. O cavaleiro passou a bater suas esporas cada vez mais forte; o cavalo relinchava de dor. Ande!, dizia o cavaleiro. Ande, criatura!, ande!

Não, respondeu o cavalo. Não ando. A guerra é inútil e eu não farei parte dela.

Mas ora, essa era só o que me faltava! Ande, eu ordeno! Ande agora! Vamos!, e batia com suas esporas já pintadas em vermelho. À frente do cavaleiro se via os exércitos guerrilhando: alguns soldados em seus então últimos berros de dor, alguns em frenesi bélico avançando por entre as linhas inimigas. Flechas cortavam o ar e pegavam os desprevenidos.

O cavalo ainda aguentava-se em pé, apesar dos ferimentos. Aguentava-se em pé, carregando seu cavaleiro. Este, um tanto perplexo quanto à atitude inesperada de sua montaria, bravejava: Qual é seu problema? Não quer guerrear e tampouco me tirará de suas costas e me dará um coice? Você é alguma espécie de idiota? Pois se não fizer como te mando, te comando... anda! Anda, besta! e batia suas esporas.

No que o cavalo respondia com o que restava de sua vitalidade: Não luto. Nem contra você nem contra ninguém. Qual... a guerra é inútil. Não me movo para isso.

O cavaleiro se irritava cada vez mais com sua situação patética, ante a seriedade da guerra. Por fim, desceu de sua montaria - que deveras já escorria bastante sangue nas laterais - e disse-lhe: inútil é você. Em seguida desferiu-lhe o golpe de misericórdia, atravessando sua espada prateada pelo corpo do cavalo. O cavalo deu um grande relincho e tombou de lado no chão, agonizando, ofegante, fraco.

O cavaleiro aproximou-se do cavalo, puxou num movimento só sua bela espada e foi lá guerrear.

2 comentário(s):

disse...

quanta masculinidade! aiushuaihs guerras, cavalos, armas, sangue... gostei do cavalo, anyway. muito bom e tals.

Caqui disse...

eca.
que coisa cruel!
já eu gostei da parte da peleia, lá em riba.