Pensamos, sentimos,
pensentimos (e etc) tudo,
até mesmo o sentir proibido
e o pensar fundalmentalmente estúpido
que é uma mandrágora
mil-folhas laranjamarelado
soprando o açúcar (em
diversas ondulações sobrepostas)
do ato de soprar (e é
o sopro que aqui age)
teus cabelos miraculosos:
haja audácia!
A primária ponta do dedo
(já fora do risco de ser corpo)
é que toca este azul veludo.
Pura sensação
falsificada, mirageira,
pois lá vai a cama-de-rosas
(azaleias, cravos) desfilar
luminescentissimamente bela
em minha mental imagem.
Enquanto eu
pensando, sentindo,
fico apenas com o que se salva
nos farelos que o vento (e etc) recusou.
Pensentir
Escrito por Jules às 23:45 | 1 comentário(s) » | marcado em poesia |
A hora de José
José queria ir a Paris
ver o mundo da gente séria
mas acabou em São Paulo; um
miserável meio à miséria.
José sonhava em ser escritor
poesia prosa romances vários
mas seu destino o fez registrar
num cartório os obituários.
José atrás de um amor
pra da casa fazer ninho;
mas seu coração amargo o fez
passar a vida a ser sozinho.
Na hora errada, no lugar errado,
indago-me:
quando é que chega a hora de José?
Zé queria viver cem anos,
sentir de mil flores o aroma,
mas o bandido sacou-lhe a arma
e disse: toma.
Escrito por Jules às 18:59 | 3 comentário(s) » | marcado em poesia |
Amor projetado
Braços se deram
dedos se roçaram
na cama adormeceram
uma noite trespassou
e o dia veio chamar
translucidamenteforme
que agora já é mui tarde
se ele quer só Maria
se ela chama por João.
Entre eles, o eco infinito
do amor projetado torto.
Escrito por Jules às 19:59 | 1 comentário(s) » | marcado em poesia |
Noivilbo
A vida voa numa virada,
para ver: nos esquecemos.
Esquecemos de que toda segunda vez
é uma nova primeira, um novo fogo,
e de que toda segunda-feira
relaxa na rede, nos convocando.
A vida é pura dor, dor concentrada,
mas qual, muito antes mergulho incerto
nesse vale que é o esquecimento...
repenso: fica aqui comigo dor,
algo ainda é memória do meu amor,
seja lá o que for.
Plano as borbulhas do amor impossível.
Projeto as estradas longínquas... em vão.
Resta em branco a dor; não a dum amor; mas a
do esquecimento fluxiforme.
Escrito por Jules às 19:56 | 2 comentário(s) » | marcado em poesia |
Passos n'água
Ele pensava, pensava sério através do silêncio da cidade. Não havia muitos prédios, hão havia quase nada. Ora! Seus passos pesados nas poças encharcavam seus sapatos completamente. "Mas que droga". Mandara-os para conserto inda esta semana... sua cabeça parecia-lhe pesada; à mente, parecia insuportável a ideia de um pensamento claro e iluminado, aqui...!
Ele errava, errava e cria que mais ninguém ao seu redor sentiria a dor - talvez por não haver deveras ninguém ao redor. Só o carro passando silente, tímido, pequeno, e foi. Só sua dor a carregar-lhe. Mas não havia ninguém! Ninguém a lhe explicar!... Persistia no erro.
Foi subindo a rua e observando as cores de dentro. à sua frente; cinza. O dia já nascera frio e quieto. E nessa chuva, e nessa névoa... "Eis um problema. Um problema formidável, este tempo suspenso...", pensava só, mão no bolso. E sua tristeza hoje o inchava porque estava cansado. Mas já amanhã...
Escrito por Jules às 19:40 | 4 comentário(s) » | marcado em conto |