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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Passos n'água

Ele olhava, olhava para todos os lados. Naquela mesma rua, onde ninguém mais ousava dizer nada. Estava chovendo leve; trouxera um guarda-chuva. Descia a rua praticamente deserta. Havia vitrines, havia luzes vindo de todas as direções. E a sensação de que havia algo de errado com o mundo e com o peso do ar não lhe deixaria nunca mais.

Ele pensava, pensava sério através do silêncio da cidade. Não havia muitos prédios, hão havia quase nada. Ora! Seus passos pesados nas poças encharcavam seus sapatos completamente. "Mas que droga". Mandara-os para conserto inda esta semana... sua cabeça parecia-lhe pesada; à mente, parecia insuportável a ideia de um pensamento claro e iluminado, aqui...!

Ele errava, errava e cria que mais ninguém ao seu redor sentiria a dor - talvez por não haver deveras ninguém ao redor. Só o carro passando silente, tímido, pequeno, e foi. Só sua dor a carregar-lhe. Mas não havia ninguém! Ninguém a lhe explicar!... Persistia no erro.

Foi subindo a rua e observando as cores de dentro. à sua frente; cinza. O dia já nascera frio e quieto. E nessa chuva, e nessa névoa... "Eis um problema. Um problema formidável, este tempo suspenso...", pensava só, mão no bolso. E sua tristeza hoje o inchava porque estava cansado. Mas já amanhã...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Breve momento na cozinha

Entrou na cozinha e ligou a luz. Após algumas piscadelas, as lâmpadas enfim acenderam. Foi andando em direção ao balcão: estava mesmo muito cansado. Há quantos dias não dormia deveras? Ficava acordado lendo ou escrevendo ou então simplesmente evitando dormir, e não sabia bem certo pra quê. Mas agora pesava a sua cabeça, pesava demais, e suspirou.

Chegou até a maquininha de café, posicionou um copo de plástico abaixo da abertura e apertou o botão. Relaxou um pouco mais ao ouvir o típico som do copo enchendo. "Caramba", pensou consigo, "O que pode ser mais abstrato do que uma 'maquininha' de café?".

Pegou o copo e bebeu. Estava ruim. Mas bebeu. Abriu uma das gavetas acima de sua cabeça e alcançou uma fatia de pão. Pensou por um momento e passar mel e deixá-la mais apetitosa, mas decidiu-se de que o esforço era pordemais grande. Deu uma mordida, o pão puro. Tomou mais um gole. E, de súbito, sorriu. "Cara", disse em voz alta para ninguém em particular, "Ela é como um caleidoscópio".

Comeu mais um pedaço do pão e saiu da cozinha. Ainda sorrindo.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Retrato da guerra

O Reino do Norte entrou em guerra contra o Reino do Sul.

Coisa mínima, coisinha de nada. Levou apenas uma palavra imprecisa do Rei do Norte para que fosse mal-entendido por todos na Grande Festa da Corte Real dos Reinos. Audácia! Audácia! É o fim!, Berravam as damas em seus sedosos vestidos. Alguns nobres mais exacerbados já estavam passando da agressão verbal à física. Confusão, caos: o alvoroço era geral no monumental salão onde momentos antes todos comiam - muito bem civilizados - o variado banquete servido.

Reis e Rainhas fugiam nas carruagens para seus respectivos reinos, bem como alguns outros membros da nobreza. Outros, mais corajosos ou apenas menos preocupados consigo, ficaram e lutaram. Cadeiras voaram, talheres de prata e ouro serviram como armas improvisadas e a peleia continuou até... sabe-se lá quando. É conhecido apenas o fato de que o dia seguinte amanheceu já com a guerra pintada no céu.

Então os exércitos se prepararam: cimitarras afiadíssimas, broquéis forjados a metal e suor, lanças e javelins, alabardas, armaduras, espadas, piques, elmos, enfim: tudo o que se encontrava disponível ao uso militar se foi estocado. Cavalos e selas para a cavalaria, arcos, bestas e balistas para a artilharia. Tudo pronto para engrenar:

Que comece a guerra!! E que vençamos!! Ouvia-se no Reino do Norte. Ouvia-se no Reino do Sul.

Após algumas horas de marcha, os dois exércitos se encontraram próximos da divisa dos Reinos. Silêncio. Tensão. Ansiedade. Havia um equilíbrio na pastagem verde onde pisavam suas botas de ferro; ambos os lados tinham suas chances de vitória no embate que se aproximava. Eles tem uma cavalaria superior, mas nossa artilharia é incomparável!, pensavam os do Sul. Temos menos homens, mas os nossos são veteranos. Verdadeiros herois de guerra!, confortavam-se nesse pensamento os do Norte.

De súbito, do silêncio, o ataque; o exército do Norte saiu à carga. Correndo o mais rápido possível, os homens brandiam suas armas e urravam seus gritos de guerra. O exército do Sul, apesar de pego desprevenido, logo seguiu caminho e fez o mesmo que seus inimigos. Todos correndo, uns em direção dos outros. Todos menos um; havia um cavaleiro do reino do Sul que mantinha-se no lugar.

O cavaleiro tentava, mas não conseguia fazer seu cavalo andar. Batia suas esporas no cavalo, berrava, demandava o seu movimento no campo de batalha; nada. Ande, seu inútil! À guerra!, e nada do cavalo se mover. O cavaleiro passou a bater suas esporas cada vez mais forte; o cavalo relinchava de dor. Ande!, dizia o cavaleiro. Ande, criatura!, ande!

Não, respondeu o cavalo. Não ando. A guerra é inútil e eu não farei parte dela.

Mas ora, essa era só o que me faltava! Ande, eu ordeno! Ande agora! Vamos!, e batia com suas esporas já pintadas em vermelho. À frente do cavaleiro se via os exércitos guerrilhando: alguns soldados em seus então últimos berros de dor, alguns em frenesi bélico avançando por entre as linhas inimigas. Flechas cortavam o ar e pegavam os desprevenidos.

O cavalo ainda aguentava-se em pé, apesar dos ferimentos. Aguentava-se em pé, carregando seu cavaleiro. Este, um tanto perplexo quanto à atitude inesperada de sua montaria, bravejava: Qual é seu problema? Não quer guerrear e tampouco me tirará de suas costas e me dará um coice? Você é alguma espécie de idiota? Pois se não fizer como te mando, te comando... anda! Anda, besta! e batia suas esporas.

No que o cavalo respondia com o que restava de sua vitalidade: Não luto. Nem contra você nem contra ninguém. Qual... a guerra é inútil. Não me movo para isso.

O cavaleiro se irritava cada vez mais com sua situação patética, ante a seriedade da guerra. Por fim, desceu de sua montaria - que deveras já escorria bastante sangue nas laterais - e disse-lhe: inútil é você. Em seguida desferiu-lhe o golpe de misericórdia, atravessando sua espada prateada pelo corpo do cavalo. O cavalo deu um grande relincho e tombou de lado no chão, agonizando, ofegante, fraco.

O cavaleiro aproximou-se do cavalo, puxou num movimento só sua bela espada e foi lá guerrear.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O ponto, minha vida

“O ponto!” berrava o homem como podia, do centro da Praça, em pé ao lado da estátua, fazendo-se grande e imponente. Era decerto um andarilho qualquer, a julgar-lhe as vestimentas, mas tinha um aspecto de higiene ímpar no rosto; parecia iluminado. Moraria ali mesmo, na Praça Giramundo? Não convém sabê-lo agora. Na esperança de ser eloqüente, ele simplesmente retomava seu discurso:

“Há um ponto onde...”, contudo não havia uma alma só que lhe prestasse atenção. Todos seguiam indiferentes, alguns apressados carregando pastas e maletas, olhando discretamente o relógio, silenciosos e distantes, mergulhados em suas vidas semanticamente idênticas. Provavelmente o andarilho estaria frustrado e até exaurido, mas ele não desistia:

“O ponto! Escutem, todos! Imaginem o espetáculo... ora, ora... aproximem-se e hei de explicar-lhes do que falo. Não é insanidade, vos juro!” enfim um considerável grupo de pessoas estava começando a ouvir-lhe, porém sem levar muita fé, fosse lá o que diria (foram pela beleza da retórica, decerto). O homem, vendo seu público já um tanto ansioso, prossegui a oratória:

“Imaginem por um momento, cidadãos! Há um ponto onde a chuva acaba e a terra adiante está seca. Imaginem... que cena linda! Magnífica! Magnificentíssima! De um lado, a chuva, cai chuva fina, cai chuva forte... do outro, Magia: seco! Seria um espelho? Seria ilusão? É o ponto que vos falo...” o homem parecia dirigir uma ópera, movia seu corpo harmonicamente para os lados, sorrindo pacificamente. “Se estou em chuva, estendo meu braço e sinto apenas o ar... ah... que sentimento de mundo incrível, incomparável... divino! O frio e o quente unidos! Ah, uni-vos! Compreendem? É a Magia!”.

“Não compreendo”, falou um moço em meio da massa, mocinho de olhos pequenos protegidos por um par de óculos. “Quando chove na cidade, chove na cidade toda. Não é possível que a chuva tenha um fim.” “Não, não mesmo” concordou uma mulher de cabelos longos, visto a oportunidade de se manifestar. “Não faz o menor sentido; tu aí à estátua mentes, calúnia! És louco, por acaso?”, e riu de sua condição.

As pessoas lentamente foram se afastando do homem, agitadas, algumas rindo, murmurando e reclamando sobre a “Perda de tempo que passei a escutar esta praga delirar!”. O homem tentou chamá-las de volta, em vão, “Voltem, voltem! Por favor. Por favor...”. Pôs-se a chorar quieto, sentado, a cabeça entre os joelhos. Não cria que alguém o tivesse levado a sério. Mas havia alguém na multidão que o fez: eu. Era jovem, é verdade, e a chaga da mocidade é crer que tudo pode funcionar como quisermos. Mas não foi por isso que acreditei nas palavras do andarilho. Foi algo superior, incompreensível, que fez com que fosse até lá e falasse-lhe:

“Acredito no senhor. Acredito em sua Magia”, tampouco as palavras ele ouviu, mirou-me primeiramente incrédulo, então sorriu, riu, gargalhou alto. As lágrimas eram agora de alegria. Recompôs-se, ergueu suas mãos até meus braços e disse-me:

“Sim! Que dia feliz, meu amigo! Pois saiba que hoje uma lição aprendeu, leva-a na vida! É meu pedido. Não faça como os demais, olhe para eles... as almas sujas, abandonadas... não! Resta esperança nesta terra; resta-a em você. Agora corre, vai! Em busca das águas, em busca do ponto!”

E então fui. Fui passar minha vida nessa idéia. Sempre que via a chuva escorrer as gotas pela janela de meu quarto, saía correndo na rua atrás do tal ponto. Às vezes me perdia, quase sempre voltava sujo, exausto. Nunca encontrava o local, mas sabia estar por aí me esperando. Cada vez era maior a esperança, afinal, tratava-se do ponto! Onde se existe e não existe simultaneamente, ah! Magia! Fantástico, estupendo! Será que o tempo lá corria? Seria também colorido? Seria doce? Que tal, que seja!

Os anos se passaram, mas nunca desisti de minha busca. Tal ilusão, tal barreira finíssima porém intransponível sempre me pertenceu, assim como a pertenci. Mas nem tudo são maravilhas neste mundo: sou velho agora. Com a idade, vem também a doença, os males, é verdade. Encontro-me agora numa manhã ensolarada; deitado à cama, observo pela janela o mundo lá fora; crianças ao verde, ao parque, carros, pessoas sorrindo, cumprimentando, interagindo umas com as outras; vida. Amam-se? Quem sabe, quem sabe sim, assim espero. Mas e eu?

Sinto que expiro hoje à noite. Sim, nunca me falhou a intuição dos bons. De forma semelhante nunca encontrei o ponto, meu ponto. O homem da Praça Giramundo que provavelmente já não pertence a esta terra, não ouvi mais dele. Fora sepultado?... Ah! Mas que linda! Que linda esta visão que agora me dei de presente. Entendi-lhe, compreendi o homem! Ah, entendi. Não me importa achar o ponto! O importante é a busca, a emoção que lhe dei. E como dei, como! A devoção toda, minha eterna luta solene e quieta, muda, ah, que momento único este, agora... é a Magia!

Aqui ponho-me a chorar, transborda-me completamente o coração. Não entendo; não requer entendimento. Expiro hoje, sim. Morro feliz; tive uma vida perfeita. Reflito: quem sabe era este o ponto?

Hoje à noite, logo após minha passagem, choverá. E amanhã os céus anunciarão os louros de um arco-íris transfigurado. Sim, sim, a intuição dos bons nunca falha! É a Magia!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O cravista

Sentado em seu pequeno banco, o cravista observava seu instrumento, imóvel, logo à sua frente.

Morava sozinho na Rua dos Frievos, nominho esquisito: não sabia de onde viera muito menos o significado; quanto à cidade, o nome já se perdeu no tempo. Na rua de pedra as árvores altas projetavam sombras compridas e relaxadas à tarde. Nessas tardes, via de sua janela a luz dourar toda a via, em perplexidade... (voltaremos à janela logo mais). De seu pequenino prédio - antigo, tinta vermelha já descascando – era o único inquilino verdadeiro. Outros moradores duravam no máximo umas sete semanas, mas ele não sabia o porquê disso: agradava-o-lhe muito. O cravista, enfim, respondia por Érico.

Pois Érico, sentado em seu pequeno banco, observava seu instrumento. À sua esquerda, a janela: perdão, leitor, mas esta merece uma curta menção.

Tratava-se duma grande janela de vidro límpido, embora já fosse de anos. Vinha a descer do teto até uma pequena altura, onde acabava. Sua visibilidade era plena. Dela via-se as pessoas, os animais, as árvores, os gestos e os sentimentos; nada que escapasse de sua lente azul; nada que conseguisse correr longe da verdade filtrada por este vidro brilhoso e luminoso. Érico tinha segurança de que ela ligava-lhe ao mundo muito mais do que a porta rangente de sua morada. Fosse morrer um dia, queria dela ser defenestrado, apesar da baixa altura do seu segundo andar.

Então Érico, sentado em seu pequeno banco, observando seu instrumento; então Érico ouviu um ruído por detrás do cravo. Observou o quarto no escuro das coisas... Mas antes ao ruído, vamos ao quarto.

Nada muito extravagante. Ao abrir a porta, dava-se de cara com sua cama, sempre polida e arrumada. À esquerda ficava a janela, e transversal a esta seu cravo. Podia assim tocá-lo e, sem muito esforço, observar o mundo através de sua janela apenas voltando a cabeça para o lado. Na parede da porta, também no canto esquerdo, uma pequena estante onde realizava escritas, anotações. Acima dessa, uma coleção de livros. Pois era este seu quarto, iluminado à vela e aceso em silêncio. Voltemos, paciente leitor, ao ruído.

Érico que sentara em seu pequeno banco e observara seu instrumento agora fita o ruído. Este ruído que virou vulto que se tornou gente e de gente acabou num anjo. Anjo? É, tinha asas de anjo a criatura, mas as asas eram negras. Os olhos, contudo, brilhavam em pureza e respeito. Vestia um robe preto com um laço amarrando-o na cintura. Tinha o cabelo branco e estava descalço. Érico não pode deixar de surpreender-se e de súbito levantou e encarou-o. Este “anjo” apenas olhava-o de volta, com um sorriso leve e frio na boca.

“Que és tu, criatura?”, perguntou Érico em susto. “Não és anjo...”

“Não”, respondeu ele. Ele, que era um anjo caído, mas não dar-se-ia ao trabalho de explicá-lo; não era do interesse do momento; também não era dos homens de entender a casta angelical. “Chamo-me Lai e vim aqui ajudar-te...”

“Lai?” repetiu Érico com dúvida.

“Isto!” disse Lai rápido e oportuno. “Vim ajudar-te, escuta-me, vamos... Vim até cá mostrar-te o mundo.”

“Não compreendo”, respondeu Érico, com a cara em sigilo e cautela.

“Pois vais. Dá-me cá tua mão e fecha teus olhos”, disse Lai, e estendeu seu braço esbranquiçado e abriu sua palma virada para cima. “Vens?”

Érico viu os olhos de Lai cintilarem. De repente a casa estava fria e compacta no espaço...

“Asno!” reclamou Lai. Érico, irritado e confuso, estendeu a mão e, com tremor e força, uniu-a a de Lai. Cerrou os olhos.

Tão rápido o fez, foi impulsionado com tremenda força para cima; só percebeu isto após um momento; pensou que havia quebrado sua cabeça no teto, mas em surpresa deu-se são e vivo. Abriu os olhos: via nuvens, nuvens gigantes, frio. Não compreendia.

“Eu disse para fechar os olhos, criatura!”, brandiu Lai, e de súbito Érico obedeceu. “Vais morrer se espiar... Não é dos homens calcular a dimensão disto.”

“Que seja o que for isto!”, pensou Érico consigo. Seus ouvidos zuniam e reverberavam, seus sentidos misturavam em sua mente. Porém, justo quando a sensação tornava-se insuportável, ela parou.

“Cá estamos, abre teus olhos agora, criatura de forma” explicou Lai. Érico mais uma vez obedeceu-o com cuidado e abriu. Encontrava-se num extenso gramado, com montanhas ao redor, ao longe. Flores e árvores existiam em bandos, na distância dos morros. As nuvens que vira não estavam mais ao céu: o dia limpo. “Vê agora o espetáculo do mundo...” sussurrou Lai.

Então ele viu. Viu o desfile dos povos: egípcios, chineses, gregos, as bandeiras que carregavam em seus peitos, viu os filhos da própria terra. Viu armas e armaduras das guerras, viu as próprias guerras: a glória da vitória e o entalo da derrota. Viu na cara de vários o fim, ou um começo, ou os dois. Estes logo passaram, pois eram passageiros, e deram espaço a Gaia. A Mãe que carregava mil flores nos braços, a beleza do fogo nos olhos, os ventos verdejantes nas pernas, o líquido da vida ao ventre, a nova vida, a vida impossível de ser mais vida, em sua forma mais viva. Vida na forma de vida. Se Gaia sorria em trovão, cantava em calmaria, e era magnífico o espetáculo. A Mãe cortou o solo e dele saiu a Alegria, que roubou a si a luz das estrelas escondidas sobre o céu claro e explodiu em dimensão e limbo. Seguiu com a Dor, e Érico sentiu a dor, roeu a dor, a expressão tão perdida e ainda assim leve. Ela ergueu a voz em náusea e enfim virou todo o azul dos lagos. Prosseguiu o Amor, e sua face era tão bela e verdadeira que Érico não pode evitar de apaixonar-se por ele. Mas logo o Amor virou-se de costas e surgiu a donzela da Paixão, em faísca e consumo: correu os céus e a terra pintando-os de cores invisíveis aos olhos. Érico ficou estupefato. Desfilaram ainda a Modéstia, se fazendo menor do que era; o Engodo, se fazendo maior do que era; o Ciúme, o Desejo, a Luxúria, a Honestidade. Cada um em sua beleza da forma, eu seu estilo inconfundível e intangível. Passaram-se os Anos, os Séculos, apareceu o Tempo: foi a festa do Universo. Apareceram as Galáxias, cresceram em supernova até que viraram grampos de luz, alfinetes de luz. Surgiram os Deuses, em seus poderios e pompas, durante raios e chamas, Anubis, Thor, Zeus. Para enfim surgir o Homem, tímido e impessoal, detrás das sombras. E Érico teve de se aproximar muito do vulto até notar que o homem a sua frente era Érico.

Então num momento ínfimo a luz e o espaço foram sugados num vazio infinito, e Érico viu-se no meio de um estupendo nada. Estupendo! Não pisava, tampouco caía, e também não flutuava. Achara seu ponto neutro. A seu lado, Lai estava sério e caricato. Ainda vale lembrar, leitor amigo, das palavras que Lai compartilhou neste momento:

“Tu viste o mundo, criatura.”

“O que dizes?”, indagou Érico em cólera e fraco.

“Viste a ordem das coisas... Sabes do passado, conheces teu futuro... Viste o mundo como ele é sem as lentes da realidade... Realidade! Esta só serve para ofuscar tua visão!”, Lai falava em aspecto quase rindo, quase sério.

“E tens motivos para mostrar-me isto tudo?”, perguntou Érico mais sério que Lai.

“O mundo só merece ser mundo enquanto ainda houver quem o veja... Ora! Agora fecha os olhos, criatura!”, disse isto e evaporou, sem a chance de Érico da resposta, numa fumaça finíssima, muito branca.

Érico obedeceu sem pestanejar. Seus ouvidos quase explodiram, sua cabeça girava em contusão estranha e aborrecida. Enfim o mal-estar ou o não-estar cessou, e ele abriu as pálpebras.

Érico encontrava-se sentado em seu pequeno banco, observando seu instrumento, imóvel, logo à sua frente.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Raras rosas rosas

Maciedo gostava muito do Parque. Sempre que tivesse a chance, caminharia pelas passagens às árvores, atravessaria a ponte sobre o lago límpido e calmo, conversaria talvez com vendedores de pipoca, sorvete e outras guloseimas. Sempre que tivesse a chance, ou seja, a todo o momento – Maciedo morava em uma pensão cuja dona caridosa praticamente o acolhera, vivia de doações alheias – por ser de bons costumes, os doadores o consideravam digno das doações – e tinha, então, muito tempo para nada – iria ao Parque. Havia dias que passava quase integralmente ao Parque: saía ainda pela manhã e voltava apenas quando a noite ameaçava encobrir o céu neutro da cidade.

Logo na entrada do Parque um pesado portão de ferro, um tanto quanto deteriorado, mas ainda assim deveras firme, fazia a guarda. Em seguida havia no canto direito jardins maravilhosos, verdadeiros oceanos de flores de diversas ordens. Rosas brancas, rosas vermelhas, rosas laranjas, rosas rosas; tulipas em tons que desafiavam as paletas de cores dos pintores que, volta e meia, por ali se encontravam; girassóis, margaridas, amores-perfeitos, cravos, camélias, violetas e mais uma infinidade de espécies. Maciedo sentia que as flores dançavam em círculos, descreviam rasas piruetas com suas pétalas e sambavam todas suas cores, felizes ao calor do dia.
Em frente havia o lago, o Grande Lago. Na realidade o lago não era grande assim, mas Maciedo não se importava, era bonito até exagerar um pouco as coisas, pelo menos as bonitas. À esquerda, um caminho que seguia contornando todo o Grande Lago, que subia em forma de ponte e que se escondia nas sombras das árvores. Nos finais de semana, eram várias as pipas no céu e canoas alugadas na água mansuetíssima. Mais ao fundo, nas pequenas colinas estáticas, era comum encontrar famílias descansando sobre toalhas xadrezes, vez em quando com cachorros correndo ao seu redor.

Era início de outono, e as folhas miscravam-se vagarosamente em tons laranja-pastéis. No inverno – há de se admitir – as árvores perdiam sua maviosidade e os jardins murchavam, todavia uma neve branca, branquíssima, deixava a paisagem inda majestosa. Logo a primavera não tardava em trazer cor de volta ao cenário, e, no verão – ah! No verão, estabelecia-se no ar uma ordem ímpar e a visão do Parque era plena. Borboletas voariam, levando todas suas virtudes nas asas; pássaros cantariam canções do sol e da lua; libélulas pousariam delicadamente na água; abelhas extrairiam o mais puro dos néctares à rainha; joaninhas e formigas e besouros, todos em uníssona união, levando a natureza em suas costas; eram tempos lindos, os de verão!

Cabia-lhe bem: havia no ar do Parque algo que enchia mais que seus pulmões. Acalmava-o-lhe também das dores da alma. Se o mundo e sua muralha cinza de verdades viscerais impusesse-se diante de Maciedo, ele corria ao Parque, pedia-lhe qual o sentido de ter-se verdades, sentido de tudo na vida. E o Parque respondia.

Na tarde essa outonal, entretanto, havia algo de móvel e úmido lançado na atmosfera, como um mofo penetrando nas paredes de uma casa lilás. Um menino encontrava-se diante do portão de ferro e entregou a Maciedo um folheto. Lia-se: “Empório de Colchões do Sr. Jamusse! Os melhores colchões da cidade, aqui!” E, em letras miúdas, mas de impacto avassalador: “O Empório de Colchões do Sr. Jamusse será construído na área onde hoje é o Parque”. Maciedo ao ler esta sentença estremeceu e sentiu uma faca invisível atravessar-lhe o corpo e alojar-se em seu estômago.

Por muito Maciedo refletiu sobre o assunto: algo havia de ser feito. Ele passou a visitar menos freqüentemente o Parque e passou mais tempo em seu quarto na pensão, indagando-se em busca de uma salvação para seu Parque. Mas nada lhe vinha à cabeça, nenhum milagre oriundo de outras galáxias conseguia alcançá-lo. Estava pasmo, ademais, da indiferença dos outros: e todas as pessoas que freqüentavam com tanta alegria o Parque, como podiam ficar de braços cruzados, imóveis a tamanho absurdo? E os sorrisos lançados na tarde, e a felicidade de haver-se um santuário em meio a uma cidade cujos pecados dormiam nas esquinas? Ele não compreendia a paralisia que corria ao braço do povo; então chorava por eles.

Maciedo resolveu recorrer à medida mais desesperada e honesta que tinha guardado: iria falar diretamente com o Sr. Jamusse, diria que não se devia destruir o Parque e explicaria o porquê disso. Ora! Se os pássaros gorjeiam somente no Parque, onde mais cantarão? Que belezas cantarão? Que valem os colchões, dorme-se no chão! Que vale a matéria, se perde-se a vida, à vida... Mostraria como as árvores conversam, a forma como o Grande Lago observa tudo e todos, irredutível em sua grandiosidade. Diria que o vento verde oés-sudoeste dança nas colinas! Desmascararia enfim a trama, a irreligiosidade em destruir-se o oásis urbano, nem que para isso teria de ajoelhar e suplicar misericordiosissimamente pela trégua.

Maciedo dirigiu-se ao escritório do Sr. Jamusse; pegara um ônibus e viajara um quarto de hora pela cidade, descera de sua condução e andara duas quadras até o prédio verde-água. Subiu alguns lances de escada (não chegou a contá-los) e parou diante duma fatídica porta, onde em letras grafadas no vidro lia: “Sr. Jamusse – Empório dos Colchões”. Abriu-a, mas não pense, leitor, que foi uma invasão: muito pelo contrário, Maciedo havia pedido à secretária que marcasse um horário para que o Sr. Jamusse pudesse recebê-lo. Ele adentrou a recepção cinza, e a secretária – muito provavelmente não aquela com quem falara ao telefone, concluiu – guiou-o até o setor em que Sr. Jamusse trabalhava.

A porta abriu e uma figura pequena, porém espaçosa, sentada numa confortável poltrona de veludo vermelho, encontrou os olhos de Maciedo. Chegou a hora, pensava Maciedo. Abriu a boca para falar – e como tinha o que falar! Era o momento negro que tanto esperava por Maciedo, era o clímax de sua angústia!

Abriu a boca, moveu os lábios, mas a voz não saiu; emudeceu. Maciedo engoliu em seco, paralisado por força maior que ele. Sr Jamusse, detrás de seus óculos grossos e bigode robusto, levantou uma sobrancelha e, após segundos de cruel silêncio, abriu uma gaveta de seu gabinete marrom. Entregou ao moço um pequeno papel; Maciedo colocou-o no bolso esquerdo, e suas pernas começaram a se contorcer. Poucos minutos passaram silenciosos, e Sr. Jamusse nem sentiu a presença de Maciedo na sala. Enfim, a força invisível de outrora moveu Maciedo para fora da sala, do escritório, do prédio. Sua face desdenhava uma forma horripilante; fora vencido? Maciedo retornou à pensão, com a morte desenhada em seu corpo, sem nem pegar condução. Assim, chegou lá no começo da noite, foi até seu quarto e sentou-se na cama. Retirou o bilhete, um tanto quanto amassado, do seu bolso. Nele estava escrito, em letras vermelhas chamativas e um contorno amarelo-ovo: “Ticket Especial: 65% de desconto em qualquer colchão!”.

Maciedo não saiu mais da pensão, passou seus dias deitado na cama, observando o teto e todos seus cantos escuros. Padeceu ali, frio, ao final do inverno. Que lhe houve, perguntavam todos que o conheciam, para sucumbir assim? A dona da pensão respondia: “Veio um fantasma e apunhalou-lhe a alma... oras!”.

Passou logo a primavera e, na metade do verão, o Empório de Colchões do Sr. Jamusse estava completamente construído e funcional.


(Originalmente publicado em 27/07/2008)