Sou o abraço do braço do relógio
sou a torneira pingando rouca
sou canto à orelha do livro
(quem me dera ter um livro
agora!).
Sou o carinho de veludo dos amantes.
E a pólvora. E pó. E rastro
de vida conquanto se vive.
Sou a formiga invencível escalando
este homem. Sou fé. Estou nu.
Sou bem poeta e a letra que me falta
desaguou rio acima, rio abaixo.
Sou cactus
sou planta imensa imensa imensa
tenho vida tenho fome tenho
mas não tenho amor amar não.
Sou cores translúcidas várias
faça inverno faça verão
a dor de um só coração
não é pret' e branca.
No esquema, sou uma alavanca
que se puxa pra parar de vez
o trem da minha vida.
Fotografia
Escrito por Jules às 21:28 | 6 comentário(s) » | marcado em poesia |
Breve momento na cozinha
Chegou até a maquininha de café, posicionou um copo de plástico abaixo da abertura e apertou o botão. Relaxou um pouco mais ao ouvir o típico som do copo enchendo. "Caramba", pensou consigo, "O que pode ser mais abstrato do que uma 'maquininha' de café?".
Pegou o copo e bebeu. Estava ruim. Mas bebeu. Abriu uma das gavetas acima de sua cabeça e alcançou uma fatia de pão. Pensou por um momento e passar mel e deixá-la mais apetitosa, mas decidiu-se de que o esforço era pordemais grande. Deu uma mordida, o pão puro. Tomou mais um gole. E, de súbito, sorriu. "Cara", disse em voz alta para ninguém em particular, "Ela é como um caleidoscópio".
Comeu mais um pedaço do pão e saiu da cozinha. Ainda sorrindo.
Escrito por Jules às 14:25 | 5 comentário(s) » | marcado em conto, Jules gostou |
Claro dia
O sol bate à porta:
acorda Juliano que é dia.
Suspeitoso ergo o olho sobre o apoio da janela.
Claro! que é dia, diazíssimo no mundo.
Me rendo às abelhas, ao frevo
das pedras nas calçadas. Às
sombras dos passageiros esperando
autorizar-lhe o tráfego dos seres.
Um teor de doce e de flor
oscila no vento e ensina
mais que ver - reparar.
Arrisco um passeio. Há uma camada
de brilho no bairro assim cedo!
Há restos de madeira e vestígios
do amor da noite ultrapassada.
Há um ócio adjetivo, disfarçado
no gesto lento
do abrir dos braços e do seio
de vossos irmãos.
Há enfim uma breve respiração aliviada
de um ar verdipuro artefato.
Luminosa cidade, eis uma lição
disposta a ser eternizada;
passada a noite me devolves à vida,
não obstante, cobras nada!
Escrito por Jules às 21:01 | 3 comentário(s) » | marcado em poesia |
Questões e nada mais
Todos nós
atirados e estirados no indivisível
mesmo varal, sob a secura do sol
queimante, que fazemos, se não secamos?
Cada um de nós
com a particular cadeira coletando
rachaduras na varanda e na cama
abandonada, que somos, se não rachamos?
Nós e apenas nós
e o sujo relógio catequizando a
todos com o badalar de seu
sino, que juntamos, se não badalamos?
(muito embora agora me badalo todo:
é meu coração pedindo trégua, altíssimo)
Eu somente
furando as quatro paredes
banidas e sumidas de meu
cômodo, que sopro, se não bano?
De quê sofro, se não amo?
Escrito por Jules às 20:54 | 1 comentário(s) » | marcado em poesia |
Aprendi com as tartarugas
Das tartarugas herdei
esse casco que me envolve
de doce jeito leve.
Nas tartarugas estudei
o calmo olhar, a experiência
do sorriso mudo e sincero.
Com tartarugas aprendi:
se quero durar duzentos anos,
se vai um passo por vez.
De tartarugas, conheci
a conquista da terra e
do mar, pacientosa.
Observando tartarugas
percebi como ter amado
serviu pra me enganar.
Interrogando tartarugas
descobri a felicidade espremida
no botão de margaridas.
Em tartarugas achei
a modéstia entrerrotada,
esta rara matéria-prima.
Por tartarugas usei
meu esforço último no mundo
insuperável e já sem gosto.
Um coral de tartarugas me esclarece:
vai Juliano! que da vida o sentido
é a grama rolando verde na colina
ao som do vento e do musgo.
Escrito por Jules às 21:51 | 2 comentário(s) » | marcado em Jules gostou, poesia |