sábado, 7 de março de 2009

Rápida reflexão antes da aula

(Certas vezes a poesia e o poeta também são reais)


Um poeta não precisa da pena alheia.
Tal como uma aranha na aurora,
tenta com esforço tecer sua teia em luz.
Sou poeta armado na fé,
no lápis, na dor e na ternura.
Um poeta não precisa de tempo.
O tempo constrói a própria estrada
do poeta errante.

(Olho o relógio: três minutos: vou subir).

O dia lúcido

Duzentos deuses vieram ao meu quarto hoje.

Me analisaram, investigaram.
Me chacoalharam, sopraram o pó do nó
que existe no mecânico gesto
de erguer o braço prisioneiro.

Este gesto era o que mais temia.

E cada palavra que solfejavam
viajava nua e crua no espaço,
inutilmente.

Duzentos deuses só vieram me contar
que as gaivotas, os pelicanos
e as sementes também sofrem.

Conversa fiada; os fitei
com olhos ondulados e disse:
nenhuma dor é tão sozinha
para que doa mais que a minha.

Consentiram, tristes. Isto foi hoje...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Cotidiano

Ergues teu mínimo navio
armado na ponta do dedo.

Olhem!

Mas o único olho é
o de McCartney, sorumbático
e pulsando vida
chorando rios de vida
despejando vida pegajosa
na rósea espiral do disco.

A maleta azul te encurrala
e te escraviza: vais trabalhar,
escavar minérios, carregar
minérios, por eles serás soterrado
sufocado por tanto peso burocrático
que nada faz, além de minerar.

Tua existência é incerta,
é trifásica e irresponsável.
Em tua casa, os não-livros
de Rimbaud
de Baudelaire
organizam o mofo da vazia prateleira.

Ainda assim, com tantos poréns colecionados,
tens à noite a coragem de abrir A rosa do povo
e com uma vírgula de esperança aspira
ser sorvido de frases mastigáveis de tão duras.

quem sabe te transmutas em rosa!
Já que ao pó não retornarás.
E ao povo nunca pertenceste.

domingo, 1 de março de 2009

Resposta

O que são as estrelas fingidas
em seus banhos de luz entretidas
sussurrando brancamente a
essência do espaço,
o que é o preto no marfim,
o óleo n'água, o dente roendo
dente, a brasa incandescente,
o revólver engatilhado, a náusea
na fala, o espinho venenoso,
o mundo na contra-mão

senão

eu, platônico,
Enviasado por teu alexandrino ato do não-amar?

Ao poeta

Poeta, amigo longo,
suas lágrimas são puro mel
vêm dos olhos e caem do céu
conta-me qual a sensação
de carregar um sentimento do mundo
na ponta grafitosa do lápis
de anis, anos se passam e tu
pendes a passar. Mas não
é escolha, brancos e humildes
teus sonhos escrevem-se.
Ao poeta amigo, guardo estes versos errantes
na vontade de que o chão flutue por instantes
onde nomeio-te rei e hei
de te prometer meu corpo
para versificar-me, eu topo!
Só horrores e amores guardei
em paz e fortuna
a meu amigo poeta, e grosseira
a noite já nasce diurna.

Carlos, tu nesta bolha de modéstia,
eu escrevo este painel esperançoso
na bruma, no breu, na areia e
na duna, a ver se te encontro.